A escrita, a linguagem e a Educação Infantil


A missão da Educação Infantil não é ensinar a ler e a escrever, nem preparar o aluno para o Ensino Fundamental. Contudo, vivemos em um mundo dominado pela escrita: do transporte público às listas de compras e em todos os aplicativos eletrônicos, as letras estão por todo lado. Como não abordar esse universo com as crianças?

No Brasil, tradicionalmente, há uma forte resistência em introduzir letras e números para crianças menores de 6 anos, na Educação Infantil. O receio é de que a Educação Infantil tenha sua identidade vinculada ao Ensino Fundamental, ou que seja vista como se sua função única e exclusiva fosse preparar as crianças para o processo de alfabetização. É compreensível também que, em um país que luta para alfabetizar todas as suas crianças antes dos 8 anos de idade, a alfabetização precoce seja encarada com desconfiança. Afinal, a Educação Infantil tem outros objetivos, diferentes dos conteúdos abordados no Ensino Fundamental. Outro temor é que, junto com a pressão para alfabetizar antes do tempo, se disseminem em larga escala práticas de avaliação do desempenho de crianças menores de 6 anos. Por isso tudo, quando o Ministério da Educação decidiu, com o apoio de grupos de professores e outros setores da sociedade, que a Base Nacional Comum Curricular incluiria a EI, a polêmica da alfabetização precoce veio novamente à tona.

A professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais, Mônica Correia Baptista, participou das audiências públicas da Base desde o início e publicou o trabalho intitulado Linguagens oral e escrita na Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil (2017). "Entendemos que, como a Educação Infantil constitui a primeira etapa da Educação Básica, fazia sentido participar da BNCC", comenta Mônica. Ela lembra que o trauma em relação à alfabetização precoce acompanha a elaboração da Base desde o início: a primeira versão do documento sofreu fortes críticas por não fazer menção alguma à leitura e à escrita. Esse direcionamento mudou: já na segunda versão, há um movimento no sentido de garantir à criança o direito de expandir suas experiências com o universo da leitura e da escrita. A terceira versão do documento enfoca a aprendizagem da leitura e da escrita na Educação Infantil. "Acho que a BNCC contempla de maneira satisfatória a leitura e a escrita na Educação Infantil", pondera Mônica Correia Baptista.

Universo dominado pela escrita

Ainda que o objetivo da EI não seja ensinar conteúdos, nem alfabetizar, vivemos em um universo permeado pela escrita, e é impossível ignorar esse fato diante das crianças - o universo da escrita está aí para elas. "Se entendemos a apropriação da escrita como um processo, então ela tem tudo a ver com a Educação Infantil. Afinal, esse é um processo que começa no nascimento, quando o bebê começa a apreender a linguagem. O bebê luta para dominar os símbolos", afirma Mônica. Segundo ela, o infante não é aquele que não fala, mas um sujeito que luta para falar. Então, a apropriação da linguagem escrita passa pelo desenho, até chegar ao refinamento de representar a palavra por meio de símbolos.

As novas tecnologias também estimulam as crianças a absorver a linguagem escrita, assim como a literatura. "A literatura é parceira e irmã da infância, oferece muitas oportunidades para a criança", comenta Mônica. Diante de todos esses estímulos, é bem possível que a criança se alfabetize antes de chegar ao primeiro ano do Ensino Fundamental, o que não justifica nenhuma pressão sobre professores de EI para cumprir com uma função que pertence à etapa seguinte da Educação Básica. Por fim, facilitar o desenvolvimento de crianças no universo da escrita tem uma dimensão de responsabilidade social: enquanto crianças nascidas em famílias com nível superior têm oportunidades de sobra nesse sentido, crianças de famílias com menos acesso aos livros dependem da escola para ter acesso à literatura e suas histórias.


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