Educação Infantil: oportunidade de equidade


Nos Estados Unidos, um programa bancado pela iniciativa privada e funcionando há 53 anos pesquisa os efeitos da Educação Infantil na redução da desigualdade. Os resultados indicam que o investimento em educação na primeira infância ajuda a comunidade, as crianças e o contribuinte, em todas as classes sociais.

 

Em 1972, no auge da Guerra Fria, duas corporações norte-americanas, a Carnegie Corporation e a Johnson Foundation, criaram um programa de Educação Infantil cuja proposta, envolvendo famílias e crianças ainda para nascer, era experimentar algo novo: desde o nascimento até os cinco anos de idade, crianças de diversas classes sociais receberiam a mesma educação, os mesmos estímulos e intervenções. O objetivo era descobrir o quanto a intervenção educacional precoce poderia ajudar a reduzir desigualdades sociais. Todas as famílias eram de Brooklyn, Massachussets e, sendo assim, a iniciativa foi batizada Brookline Early Education Program, ou BEEP. Pode parecer contraintuitivo corporações investirem em escolas mistas para a primeira infância, mas uma das interpretações do pensamento tradicional liberal afirma que a principal imperfeição do sistema capitalista é justamente a falta de igualdade de condições em que se dá a competição. Essa linha de pensamento afirma que todos devem competir em condição de igualdade.

 

O experimento se inspira no livro Intelligence and Experience, de J. McVicker Hunt , no qual o autor argumenta que a inteligência não é algo dado no nascimento e imodificável até a morte, mas sim uma construção que se dá principalmente na primeira infância. Para iniciar os trabalhos, a Carnegie Corporation se aproveitou dos investimentos que fazia desde a década de 1950, partindo do trabalho do diretor escolar Robert Sperber, preocupado com crianças que já entravam na escola com dificuldades de aprendizado. O BEEP tornou-se um programa interdisciplinar e experimental que envolvia pesquisas médicas e educacionais direcionadas a encontrar as melhores abordagens e intervenções em benefício do desenvolvimento cognitivo de crianças. Alguns dos pesquisadores envolvidos tornaram-se pioneiros de novos campos, como é o caso de Mel Levine e a neurociência.

 

Encontro entre medicina e educação

 

O BEEP promoveu ativamente o encontro entre pesquisadores dos campos de medicina e educação para compreender melhor como o desenvolvimento das crianças é influenciado por experiências na primeira infância. Essa abordagem exigia participação constante das famílias.

 

Um aspecto crucial do programa, no entanto, foi o fato de ser multicultural e multilíngue, aberto a todos os membros da comunidade, não somente a crianças “vulneráveis”. Os termos “diversidade” e “inclusão” se aplicam bem aqui: crianças de várias classes sociais, origens étnico-raciais e com diferentes idiomas nativos participaram. Além de aulas e atividades educacionais, o centro do programa oferecia consultas médicas, visitas domiciliares de profissionais do magistério e da saúde, salas de brinquedo e eventos para socialização das famílias. A ideia não era promover a escolarização precoce, mas sim um ambiente rico em oportunidades e experiências. O acompanhamento da primeira turma de crianças do BEEP se estendeu até o término da Educação Básica e constatou melhora no desempenho acadêmico e socioemocional dos participantes. Um fator ainda mais importante, para as crianças do BEEP, foi que o nível educacional da mãe deixou de ser um fator quase determinante de fracasso acadêmico. “As descobertas mais promissoras indicam que os reais benefícios vêm de habilidades não cognitivas – competências sociais, emocionais e comportamentais que levam ao sucesso mais tarde na vida – e que os efeitos positivos são mais fortes quando as crianças entram novas no programa”, afirmou um paper publicado em 2006 pela Corporação Carnegie. Já adultos, os participantes do BEEP mostraram menores chances de ganharem salários baixos, disseram ter melhor autoestima e um melhor relacionamento com seus pais.


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