Brincando: a importância do faz-de-conta no aprendizado


Brincadeiras de faz-de-conta são essenciais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças. Mas a sociedade de consumo nos induz a adquirir brinquedos prontos, que induzem a um uso convencional e único de cada peça. Recuperamos alguns autores para argumentar sobre a importância de deixar as crianças livres para criar, recriar e mimetizar.

 

Walter Benjamin, filósofo alemão e judeu do século XX, já apontava, na década de 1930 do século passado, para os perigos que a sociedade de consumo apresentava em termos de empobrecimento das experiências de vida do ser humano, em especial na infância. O processo produtivo tecnicista, no qual cada homem e mulher entende apenas a parte que lhe cabe, e a lógica segundo a qual o adiamento do prazer traz a máxima recompensa na forma de objetos materiais estaria empobrecendo nossa experiência na Terra. Em um paper intitulado “A brincadeira e a invenção do mundo em Walter Benjamin e Donald Winnicott”, Marie Claire Sekkel destaca a importância que o conceito de mimeses tem para Benjamin e sua leitura da brincadeira. Começando pela maneira como, por meio do ato de repetir uma mesma brincadeira de novo e de novo, adquirimos experiências valiosas para a vida.

Para Benjamin, a mimeses guarda fortes relações com sua teoria da linguagem e sensibilidade. O homem, segundo ele, possui a capacidade mimética de reproduzir e reinventar a natureza. A mimeses não deixa de ser um faz-de-conta, por meio do qual vivenciamos e conhecemos o mundo. Esse faz-de-conta, assim como a repetição, é uma parte essencial da brincadeira infantil e do aprendizado.

Benjamin, claro, não é o único teórico que ressalta a importância da brincadeira de faz-de-conta para o desenvolvimento das crianças. Winnicott, citado anteriormente, chega a defender que a brincadeira é fundamental para a transmissão e preservação da cultura de um povo. Vygotsky também se destaca na defesa do papel da brincadeira simbólica no aprendizado.

 

Na escola: brinquedos vs brincadeiras

 

O Ministério da Educação anunciou que, em breve, deve começar a avaliar as condições de oferta da Educação Infantil. Como provavelmente a avaliação deve focar nas condições de oferta, o que implica que condições como infraestrutura e formação de professores devem ficar no centro das atenções de escolas e redes. Brinquedotecas e bibliotecas bem equipadas provavelmente vão dar ponto positivo às escolas, mas é preciso lembrar que o conteúdo conta. Será que essas brinquedotecas constituem mesmo um espaço que convida as crianças à brincadeiras ricas em faz-de-conta? Ou elas disponibilizam apenas brinquedos prontos e temáticos, que limitam a imaginação?

 

Raquel Franzim, assessora pedagógica da área de Educação e Cultura da Infância, do Instituto Alana, defende que a escola deve possibilitar que as crianças soltem a imaginação. “O brincar acontece independentemente do brinquedo, pois recriar e criar é uma expressão humana. A criança transforma um galho em espada, um agasalho em boneco e necessita de tempo e espaço para dar vazão ao criar”, afirma. Raquel acredita que é melhor, para as escolas de Educação Infantil, selecionar materiais não estruturados ou semiestruturados. Ou seja, ressuscitar as boas e velhas oficinas onde as crianças faziam seus próprios brinquedos a partir de plástico, madeira, cartolina, entre outras coisas. “As crianças gostam de ser ativas com os brinquedos”, acredita.


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