Formação de professores


Documento publicado pela USP afirma que investimentos em cursos de pós-graduação de alta qualidade não alcançam escolas de Ensino Fundamental e Médio porque profissionais muito bem qualificados tendem a abandonar a sala de aula. O salário médio do professor chega a ser 3 vezes menor que o rendimento médio de profissionais na área de exatas, por exemplo.

 

Modificar radicalmente a maneira como a sociedade enxerga e remunera o professor da educação básica: oferecer não somente salários compatíveis com o de profissionais igualmente qualificados no mercado, mas planos de carreira que possibilitem o crescimento pessoal, financeiro e intelectual de cada professor. Essa parece ser a tarefa – aparentemente impossível – necessária para reformar a educação brasileira. A conclusão, entre outras reflexões, aparece em documento publicado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Outro documento, publicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, se posiciona de forma semelhante ao defender a valorização do professor e da escola pública de educação básica, bem como o Plano Nacional de Educação. As organizações se manifestam contra o congelamento dos gastos com saúde e educação por 20 anos.

O documento do IEA – USP argumenta que as mazelas da educação brasileira estão relacionadas, fundamentalmente, à insuficiência de recursos financeiros. Portanto, reformas curriculares e outros malabarismos elaborados com o objetivo de culpabilizar os professores pelo “fracasso absoluto” da educação brasileira não resolveriam a situação. Pesquisadores da universidade argumentam ainda que os resultados das avaliações em larga escala são manipulados por setores da sociedade e, em parte, pela mídia, para tecer uma narrativa de “terra arrasada”, segundo a qual não existiriam escolas boas no Brasil. Essa narrativa ignora o bom trabalho feito por várias instituições no país e constitui uma tentativa de justificar o corte no investimento em setores chave, como ciência, tecnologia e capital humano. Afinal, por que tentar ensinar quem não consegue aprender?

 

Investimento e educação de qualidade andam de mãos dadas

Diversas pesquisas, incluindo algumas patrocinadas pelo Banco Mundial, argumentam que o investimento em educação está entre os que mais rendem fruto. Além do mais, o desenvolvimento científico e tecnológico se mostra como único caminho seguro para garantir o crescimento econômico e o aumento da renda da população. Tendo em vista tais constatações, o corte no investimento em educação, ciência e tecnologia parece contra produtivo, mas é exatamente isso que observamos acontecer hoje. Para piorar a situação, a liberdade de cátedra se vê ameaçada com a abertura de sindicâncias em universidades, com o objetivo de gerar insegurança jurídica para professores.

“A falta ou o despreparo de professores seria uma razão plausível para justificar os problemas educacionais, mas não se sustenta quando confrontada com a realidade. De fato, a efetiva falta de professores em algumas áreas está diretamente relacionada às condições de trabalho usualmente oferecidas; eis o problema real a ser enfrentado. Mantidas tais condições, não adianta muito ofertar oportunidades de melhoria na formação: quanto mais bem preparado se torna um professor, mais ele se afasta da sala de aula da escola básica, buscando trabalho em outros espaços”, afirma documento divulgado pela USP. Nos últimos anos, investimentos em cursos de pós-graduação na área de ensino de matemática e ciências não teriam chegado às salas de aula da educação básica, pois os egressos abandonam suas posições por outras mais lucrativas. “Os salários dos profissionais da educação básica são cerca de 52% menores que os correspondentes de profissionais de outras áreas.Um professor da rede pública recebe, em média, 3,8 mil reais por 40 horas de trabalho, enquanto a média entre profissionais de todas as áreas com o mesmo nível deformação é de 7,3 mil reais. Profissionais da área de exatas chegam a receber uma média de 12,3 mil reais”, afirma o relatório, acrescentando que as áreas administrativas “sugam” boa parte dos professores que buscam avançar na carreira. Em resumo, não há planos de carreira atrativos para quem deseja permanecer em sala de aula.


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