Educação: tema desperta atenção do público e é pauta nas eleições


Jornalistas da área de educação debateram o tema em encontro realizado nos dias 6 e 7 de julho. Apesar da histórica falta de interesse no tema educação na política brasileira, ele vem sendo debatido nas eleições desse ano.

 

O evento do Jeduca, principal encontro de jornalistas da área de educação no Brasil, aconteceu nos dias 6 e 7 na cidade de São Paulo e, como não poderia deixar de ser, debateu temas “quentes” relacionados à educação no Brasil, bem como as perspectivas políticas que se colocam para o país nas eleições desse ano e seu impacto para a educação. Entre os palestrantes estavam Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação no governo Dilma e pesquisador na Universidade de São Paulo, e Claudia Costin, coordenadora do centro de excelências e inovação de políticas educacionais da Fundação Getúlio Vargas. Ambos trouxeram olhares e vivências da área de políticas públicas, apesar de bastante diferentes uma da outra: enquanto Costin trabalhou no Banco Mundial e oferece uma visão das políticas da instituição, Ribeiro falou principalmente sobre a academia e as políticas do governo brasileiro.

 

Renato Ribeiro comentou uma das manchetes mais polêmicas do início de agosto: o corte do orçamento do Capes em quase 50%, o que coloca em risco bolsas de mestrado e doutorado. Essa parece ser uma discussão que tangencia a Educação Básica, mas não é bem assim. As portarias 289 e 478 do Ministério da Educação, por exemplo, concedem bolsas para professores da rede pública da educação básica cursarem o mestrado profissional. Com o corte orçamentário, esse incentivo para formação continuada corre o risco de acabar. Janine Ribeiro comentou ainda proposta polêmica de um dos candidatos à presidência da república, que afirma desejar cobrar a pós-graduação em universidades federais. “Cobrar a pós-graduação não vai fazer diferença [no orçamento das universidades]. Se queremos cobrar de quem tem muito dinheiro, é melhor cobrar no Imposto de Renda”, afirma ele, lembrando que no Brasil quem ganha cerca de 6 mil reais mensais paga o mesmo imposto, proporcionalmente, de quem ganha 60 mil ao mês. No Brasil, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos ou países da europa Ocidental, as universidades privadas concentram a maior parte dos alunos de baixa renda, enquanto o concorrido ingresso nas federais faz com que as vagas em cursos “difíceis”, como Direito e Medicina, fiquem com quem pode pagar por colégios caros.

 

Educação no Brasil: desprezo pela técnica?

 

Claudai Costin criticou ainda o que chama de “desprezo pela técnica e pela evidência científica” na educação. É como se a educação fosse uma arte e, cada professor, um artista. “Formar [a pessoa] para exercer uma profissão é fundamental”, afirma. Claudia Costin e Janine Ribeiro lembraram que o mercado de trabalho está prestes a passar por uma enorme transformação, na qual muitos empregos serão automatizados, incluindo carreiras consideradas intelectuais, em áreas como advocacia e contabilidade. “Uma questão decisiva é a solução colaborativa de problemas”, afirma Costin. Isso porque as máquinas não colaboram ou dialogam como os seres humanos. Por isso, quem trabalhar bem em grupo estará em vantagem. Por fim, o consenso é de que no Brasil o principal desafio é atingir a excelência com acesso democrático: boas escolas que não exijam vestibulinho, ou melhores resultados para todos.

 

A professora da educação básica convidada, Maria Socorro Braga Reis, professora alfabetizadora no Pará, falou sob a perspectiva do chão de sala de aula. Os desafios da educação básica em escolas na periferia de Belém ou cidades pequenas no Pará são difíceis de entender para altos burocratas do governo ou Banco Mundial. Segundo ela, ainda há escolas com telhado de amianto, onde a temperatura torna-se insuportável em alguns dias. Além disso, as estatísticas não dão conta da importância do exemplo de excelência que aparecem em um ou outro lugar e que são fruto da garra e da esperança de profissionais dedicados. “Temos professores que lutam, que alfabetizam o filho do pobre com 5 ou 6 anos de idade. A legislação precisa ouvir os professores e as famílias”, afirma Maria Socorro Braga Reis.


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