A cidade e as infâncias


O ser humano aprende com os encontros. Uma cidade que acolhe bem suas crianças proporciona possibilidades de aprendizado em suas ruas, parques e praças. Na maior cidade da América Latina, muitas crianças não têm acesso à incrível diversidade de tipos humanos e visões de mundo que circulam pelas ruas paulistanas, porque dificilmente saem às ruas.

São Paulo é uma metrópole globalizada, marcada pela diversidade étnica e cultural e pelo pluralismo religioso. A capital paulista é também um lugar onde convivem pessoas com filosofias de vida e visões de mundo diferentes. Toda essa diversidade que, longe de ser ensaiada, é a espinha dorsal da identidade paulistana, oferece oportunidades de encontros com potencial transformador para a educação de crianças e jovens. A forma como a cidade e a sociedade se organizam, no entanto, pode privá-los desses encontros. Em São Paulo, grande parte das crianças e adolescentes de classe média percorrem toda a cidade de carro, ao passo que crianças e jovens da periferia se locomovem a pé e de ônibus, o que acaba dificultando seu acesso a parques, museus e outras atrações culturais.

O projeto Rede Nossa São Paulo que, entre outras ações, divulga dados sobre o bem-estar urbanístico, mostra que 62,5% dos distritos de São Paulo não têm centros culturais. De maneira geral, a falta de mobilidade territorial não favorece encontros significativos de crianças e adolescentes com a diversidade paulistana. George Winnik, coordenador do grupo de trabalho sobre crianças e adolescentes da Rede, lembra que a construção de uma sociedade melhor passa necessariamente pela necessidade de propiciar às crianças acesso e condições para elas se desenvolverem. "Qualquer país do mundo que se desenvolveu tem uma política mais coerente para crianças e adolescentes", comenta, citando o exemplo de países da Europa e o Japão, onde muitas crianças vão a pé, sozinhas, para a escola. Esse percurso, aliás, tem grande poder educativo, pois no caminho a criança encontra pessoas e eventos que as estimulam e fortalecem seu vínculo com a comunidade. Isso era parte da rotina dos nossos avós e bisavós. Hoje, a maioria dos pais reluta em permitir que seus filhos menores circulem sozinhos pelas ruas de São Paulo. Esse medo é justificado: em 2016 foram 9,5 assassinatos por 100 mil habitantes. Já os atropelamentos são a segunda maior causa de morte no trânsito no estado de São Paulo.

Cultura do medo

Ao mesmo tempo em que a violência é real, o medo é paralisante. Ao compreendermos a educação como um processo de construção e vivência, percebemos que nada é mais prejudicial do que ficar parado. "O Brasil é uma sociedade que vive com medo, uma sociedade segmentada. Tudo isso é absorvido pelas crianças", acredita Winnik. A boa notícia é que o investimento em um planejamento urbanístico para melhorar a vida das crianças acaba beneficiando todo mundo. Em outras palavras, uma cidade mais segura para as crianças significa mais segurança para todos. "As pessoas precisam enxergar a cidade de forma diferente", afirma. Clubes, condomínios fechados e viagens de carro contribuem para isolar a criança da comunidade e do mundo em que vive.

Investimentos

Ao redor do mundo e na própria capital paulista, existem vários projetos que visam aumentar a integração da criança com a cidade. Os indianos foram os primeiros a construir o que chamam "cidade inteligente amiga da criança". A cidade de Bhubaneswar é uma associação entre a Fundação Bernard van Leer e do Instituto Nacional para Assuntos Urbanos da Índia (NIUA, na sigla em inglês). A ideia é incorporar a perspectiva das crianças no planejamento urbano e nas políticas públicas. Na cidade de São Paulo, o projeto Bairro-Escola tenta fortalecer os laços entre as crianças e a comunidade, tornando o bairro um ambiente educativo. Esses projetos mostram que é possível construir comunidades inclusivas, em que crianças não são apenas bonecos sentados no banco de trás de um carro blindado, mas cidadãos do presente, participativos e cheios de novas ideias sobre como construir um mundo melhor


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